sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Blecaute - Marcelo Rubens Paiva


 Com uma narrativa envolvente, “Blecaute”, de Marcelo Rubens Paiva, se tornou um livro admirável. Três amigos — Rindu, Mário e Martina — decidem se aventurar em uma caverna e ficam presos nela por três dias, consequência de uma enchente que impediu a sua passagem. Quando saíram do lugar e voltaram a São Paulo, encontraram todos transformados em estátuas; o mundo tinha parado, o que fariam? Eles são os únicos sobreviventes do mundo e os questionamentos não param de aparecer. Até se tornarem vãos e inúteis.
É uma narrativa rápida e simples. Mesclando alegrias e revoltas dos personagens, Paiva me teletransportou para um mundo diferente. Eles eram os “donos do mundo”; podiam fazer qualquer coisa em qualquer lugar. Sozinhos. Estavam sozinhos no mundo.
Durante a leitura, me senti apreensiva em algumas passagens. Enquanto o tempo passava, mais se tornava difícil a vida em três pessoas. Conflitos e comemorações. Questionamentos e conformismo. Medo. Pesadelos. Desistência. Luta.
 Um livro feito para ser apreciado.
“Estava livre, mas não sabia onde procurar a tal liberdade.”

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O dia em que matei meu pai - Mario Sabino


Se ao olhar o título espera-se um livro pesado e forte, o que está escrito nessas páginas retira toda essa impressão. Fiquei assustada, confesso. Assustada com a genialidade do autor e com as palavras calculadamente arrumadas para serem lidas com fluência.
“O dia em que matei meu pai”, de Mario Sabino, é um livro curto e de narrativa envolvente. Relata, principalmente, os motivos que levaram o protagonista a matar seu pai. Embora eu tenha pensado em motivos fracos e poucos convincentes ao ver a premissa do livro, deliciei-me com a realidade de que o autor sabia o que estava fazendo. E fez os motivos dignos do ato.
Com questionamentos filosóficos e contato personagem-leitor muito evidente no decorrer do livro, você se vê seduzido por uma história trágica e lotada de verdades. Assustador do início ao fim, o ato de abandonar a leitura poderá ser equiparado a um sacrifício quando se trata de “O dia em que matei meu pai”. Leitura excelente e genial.
"E talvez não exista mesmo uma verdade íntegra, sólida, com encaixes perfeitos. E talvez a verdade não passe disso, de um amontoado sem ordem de meias-verdades.” 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O oceano no fim do caminho - Neil Gaiman


 “O oceano no fim do caminho”, de Neil Gaiman, é uma história intrigante e que revela diversas lições ocultas e interpretações distintas. A história começa quando o narrador — personagem sem nome — volta à fazenda das Hempstock em um dia que está vagando sem rumo pelo lugar onde morava quando era uma criança de sete anos. A fazenda é no fim do caminho e foi lá que ele conheceu o lago, chamado de “oceano” por Lettie Hempstock, sua amiga de onze anos na época. Quando ele senta-se em um banco à margem do lago, lembra-se de tudo daquela época: das dificuldades financeiras dos pais que foram obrigados a alugarem um quarto vago na casa para conseguirem dinheiro; do minerador de opala que havia sido um inquilino, roubara o carro da família e se matara no banco traseiro; de Ursula Monkton, sua governanta que na história era uma criatura de outro mundo que atormentava o menino sem nome; mas lembrou-se, principalmente, de Lettie, que o havia apresentado ao oceano e a um novo mundo e feito de tudo para protegê-lo.
Utilizando da narração de uma criança, o escritor aproveitou para fazer uma fábula distante de nossa realidade, mas que parecia palpável e extremamente fácil de ser imaginada. Com lições ocultas durante todo o livro — é impossível captá-las tão facilmente durante a primeira leitura —, é muito simples para entrar na realidade descrita e acreditar que ela seja realmente verdadeira. Uma leitura que deixa apreensivo, curioso e que tem diversas reviravoltas, apesar de ser lenta e agradável.
Fala, principalmente, de como o que fazemos na infância reflete quando nos tornamos adultos; fala das memórias que são apagadas mediante o tempo; fala dos sacrifícios que precisamos fazer e do quanto precisamos ser dignos da vida que levamos. Mostra o quanto a morte é inevitável, assim como a melancolia que vem junto dela.
Um livro melancólico, intrigante e cheio de significados.
“Pessoas diferentes se lembram das coisas de jeitos diferente, e você nunca vai ver duas pessoas se lembrando de uma coisa da mesma forma, estivessem elas juntas ou não.”

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O Milagre - Nicholas Sparks


 Com suavidade característica, Nicholas Sparks derreteu mais uma vez corações com sua história. “O Milagre” relata a história de Jeremy Marsh, um jornalista nova-iorquino famoso por desvendar mistérios sobrenaturais. Ele é convocado através de uma carta para analisar um fenômeno que faz um cemitério ficar iluminado em dias enevoados. O cemitério se localiza em uma pequena cidade da Carolina do Norte que é chamada de Boone Creek. Jeremy planeja ficar instalado uma semana na cidade, tempo o suficiente para desvendar o mistério através de análises e pesquisas. Somente não contava que fosse conhecer uma bibliotecária tão atraente quanto Lexie Darnell, uma mulher bonita e intelectual que o conquistou desde a primeira vez que se viram.
Ambos se envolvem em um relacionamento que não há solução. Ele não planeja deixar Nova York tão cedo, tampouco Lexie deseja abandonar Boone Creek. Com esse impasse, Nicholas Sparks cria uma história cheia de reviravoltas excitantes e é impossível conter o sorriso que domina seu rosto na maior parte do livro, mas também com o coração apertado em algumas passagens. A história se desenrola com uma maestria envolvente e é impossível respirar até que você chegue à última frase.
Uma história inspiradora que faz até os mais descrentes acreditarem no potencial de um milagre.

“— Você não acredita em magia de nenhum tipo? 
— Não — ele falou. 
— Isso é triste — ela disse. — Porque às vezes ela existe.”

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Quinze dias em setembro - Ryoki Inoue


O livro Quinze dias em setembro, de Ryoki Inoue, relata o que antecedeu e o que se sucedeu o ataque ao World Trade Center e ao Pentágono nos Estados Unidos em setembro de 2001, dois símbolos de sua hegemonia econômica e militar, respectivamente. A história se passa em torno de vários personagens que se interligam através do ataque às Torres Gêmeas e a narrativa acontece principalmente em São Paulo e Nova York.
Apesar de ter uma boa proposta, o livro não atende tanto às expectativas. Até a página 150 a leitura é maçante e tem como principal foco Fefê, um playboy paulistano que não foi capaz de conquistar. Suas atitudes eram precipitadas, sua personalidade era infantil e ele era extremamente fútil para conseguir conquistar o leitor. Os outros personagens eram mais inteligentes — principalmente os agentes do FBI e alguns jornalistas investigativos —, contudo eram facilmente enganados e também não tinham a personalidade necessária para conquistar o leitor.
Depois que realmente ocorre o ataque que o livro ganha um ritmo bom, não necessariamente eletrizante, mas que o prende até as últimas páginas. No entanto, o seu desfecho não foi marcante ou tão bem elaborado quanto acreditei que seria. Não é um livro para se apaixonar ou para encontrar citações em todas as páginas. Tanto que nenhuma citação me marcou.
As características dos personagens poderiam ter sido melhor exploradas, assim como o seu desfecho. Entretanto, contém informações interessantes sobre o terrorismo e como ficou a situação de Nova York após os atentados, desde o caos que se estabeleceu até o sofrimento de perda que as famílias sentiram. 

domingo, 2 de novembro de 2014

Jardim de Inverno - Kristin Hannah


Não há palavras capazes de expressar os sentimentos que são expressos nesse livro. Uma folha de papel ou um livro todo não seriam suficientes. Nada seria o suficiente. 
Não é à toa que "Jardim de Inverno", de Kristin Hannah, tenha sido best-seller do The New York Times. O livro relata a história de Meredith e Nina, duas irmãs que prometem ao pai no seu leito de morte que tentarão descobrir qual a verdade por trás da fachada fria e indiferente de sua mãe, Anya.
A princípio, é um livro arrastado. Durante mais de cem páginas, é muito fácil se dispersar da leitura ou trocá-la por alguma outra coisa. O potencial do livro não é explorado de início; requer um tanto de coragem para chegar à parte emocionante. Contudo, não há como interromper a leitura depois de certo ponto. 
Através de um "conto de fadas", a mãe de Meredith e Nina se aproxima das duas, criando um vínculo que parecia meramente impossível. As palavras são delicadas, mas carregam o gosto pesado do sofrimento dos personagens envolvidos no conto de fadas. 
O livro mais triste e esperançoso que eu já li. Um relato incrível de coragem em tempos de guerra, cheio de lições de vida capazes de mudarem tudo o que se pensa. Perdi a conta de quantas vezes me embalei em minhas lágrimas - tanto de tristeza quanto de felicidade - durante a leitura. 
Mais um livro que me deixou com a terrível sensação de vazio. Leitura obrigatória tanto para os mais corajosos quanto para os mais perdidos. Um reencontro encantador consigo mesmo. 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Extraordinário - R. J. Palacio


Com a conhecida frase “Não julgue um menino pela cara” escrita no verso do livro “Extraordinário”, R. J. Palacio convidou milhares de leitores ao redor do mundo a entrarem no incrível universo de sua obra singular. O livro relata a história de August Pullman, garoto que nasceu com uma deformação no seu rosto, apesar de nunca ter tido nenhuma deficiência em sua mente. Ele é um garoto de dez anos como qualquer outro: anda de bicicleta, come sorvete, joga videogame. A sua vida muda drasticamente mesmo quando ele entra para a escola no quinto ano; novas emoções, bullying, traições, amigos, inimigos.
As narrações do livro são intercaladas em oito partes, com diferentes personagens relatando suas próprias vidas e participando ativamente da história central. E é através dessa troca de narradores que é possível perceber inúmeras lições de vida implícitas na história. Cada personagem conta sobre o seu problema — seja a pobreza ou pais que não dão atenção — e pode-se tirar mais de uma lição. A interpretação é realmente do leitor. Ou aprende-se que não tem uma escala comparativa entre os seus problemas e os de outras pessoas ou aprende-se que sempre há alguém com problemas muito mais sérios que os seus, mas que lida muito melhor que isso.
Cheio de lições, emocionante, engraçado e inspirador, é provavelmente uma das minhas melhores leituras. Uma sensação de vazio enorme me preencheu quando eu cheguei à última página. Auggie tinha se tornado o meu amigo especial, que me fazia rir, chorar e aprender. Um livro que tirou um pedaço meu e o trocou por outro muito melhor, muito mais sábio e entendido.
É uma leitura obrigatória e, sinceramente, extraordinária.

“Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo.” — Extraordinário, R. J. Palacio.